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Sexta-feira, Dezembro 29, 2006


A paixão quer sangue e corações arruinados. E saudade é só mágoa por ter sido feito tanto estrago. Legião Urbana - Longe do meu lado

É tanta coisa acontecendo, que às vezes falta tempo pra escrever. Mas o que tem acontecido será narrado aqui, é só esperar. Um pouco. Uns dias.
Feliz ano velho para aqueles que podem olhar pra 2006 e dizer: "Esse foi um bom ano!".




Quinta-feira, Dezembro 21, 2006


Como um anjo caído, fiz questão de esquecer, que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Legião Urbana - Quase sem querer



Acordei pra almoçar, mas logo parti para minha sesta. E olha que minha sesta, em tempos de férias, pode durar mais de 5 horas. No ápice do sono, eis que o telefone toca. Já estava pensando em xingar o safado que ousava atrapalhar meu sono, mas vi que era o Fred.

- João Eduardo!
- Fala, Fred!
- Como vai?
- Sonolento! E você?
- Isso é hora de dormir, cara? Bom.. Você vai pra missa de formatura hoje?
- Vou sim. Mas é só às 7 horas, não é?
- Sim, 7 horas. É que tenho algo pra lhe dizer. Você acredita em Deus?
- Ahn? Acho que sim. Creio que ele que não acredite em mim.
- Então vá preparado pra rezar. Porque a Lia tá solteira.
- Essa piada animou uma tarde chuvosa do meu avô em 1941.
- Falo sério, meu caro! A Gabi comentou comigo. Disse que eles vivem terminando e voltando. Mas que dessa vez parece que não tem volta. João, a Lia tá solteira! Faça alguma coisa, pelo amor de Deus! Não permita que ela volte para aquele mala do Leonardo.
- Pena que não posso fazer nada..
- Pode sim, João. O que não pode é ficar parado aí. Bom, já dei o recado. Agora é com você.
- Ok, ok! Obrigado, Fred!
- De nada. Eu tenho uma aposta pra ganhar. Hehe.
- Ora, seu safado!

Desliguei o telefone e voltei pra cama. Grandes merda. Tentei retornar à minha sesta.

*

Não consegui. 1 minuto depois, levantei-me da cama. Não conseguia dormir. Era tanta ansiedade, tanto receio, tanta felicidade. Tudo se misturava. Andava pra lá e pra cá, no meu quartinho minúsculo. Mais um pouco e faria um buraco no chão. Respirei fundo, controlei meu nervosismo e comecei a falar sozinho, em voz alta.

- Ok! Certo. Então.. É hoje! É agora ou nunca, João! Vê se faz alguma coisa que te orgulhe ao menos uma vez na vida, seu bundão!

Saí do quarto e fui assistir TV. Mas não prestava atenção em nada. Peguei um jornal, tentei ler. Li várias vezes a mesma notícia. Minha irmã falava comigo, mas eu nem sabia do que ela tava falando. 5:30. Fui tomar banho, me arrumei, e sentei na cama. Fiquei pensando o quanto poderia ser importante aquele dia. Fiquei imaginando que minha timidez iria me frustrar novamente. Eu precisava fazer alguma coisa, e só força de vontade não era suficiente. Lembrei da bebida. Lembrei do efeito que ela me fazia. Corri pra geladeira e encontrei umas cervejas que meu pai havia comprado. Eu odeio cerveja, já comentei aqui.

Abri uma latinha e bebi tudo. Joguei no lixo e abri outra. Bebi toda, também. Voltei pro meu quarto. Vasculhei minhas gavetas atrás de um remédio. Rivotril. Dizem que dá sono, mas em mim costuma surtir o efeito contrário. Eu fico elétrico. Sempre tomo, quando vou viajar de avião, porque tenho um certo "medinho", e sob efeito do remédio eu fico tranquilo. Na última vez, a aeromoça estava apavorada com a turbulência sem fim, enquanto eu quase tirava o cinto de segurança e dançava um mambo no corredor, tamanha era a empolgação.

Tomei uma pílula. Vi que não era suficiente. Encontrei uma cartela de Maracujina. Tomei 4, de uma vez, e guardei o resto no bolso. 6:20. Procurei na minha carteira e achei um Dramin. Resolvi não tomá-lo, ainda. Voltei pra cozinha e peguei mais uma cerveja na geladeira. Estava quente, terrível, mas pouco importava. Após ter ido ao banheiro, pra não correr o risco de ficar "apertado" em plena missa, resolvi partir. Minha irmã me viu arrumado e perguntou.

- Pra onde você vai?
- Uma festa ali! Tchau.

Resolvi não contar para minha família que era a missa de formatura. Certamente, eles iriam querer ir também. E, além de me sentir mais livre sem eles, eu não sabia como me comportaria naquela condição.

Porque uma hora caiu a ficha. Eu estava praticamente drogado. Mas a timidez parecia ter ido embora. Ver imagens em movimento olhando, parado, para um ponto estático, não era exatamente um problema.
Peguei um táxi, por garantia, e cheguei na igreja.

Fiquei um tempinho olhando as pessoas chegarem, alguns rostos conhecidos, alguns amigos de "Oi e Tchau". Até que chegou o Fred.

- João!
- Ê.
- Você tá estranho, cara.
- Eu tô ótimo, cara. Ótimo. Nunca estive tão bem. Ótimo. Ótimooooooo.
- Tá bom, não precisa ficar repetindo.
- Cadê a Lia? Cadê aquela diabinha?
- João, você tem certeza que.. ?
- Tô brincaaaaaaaaando, meu amigo! Que é isso, cara. Tá tranquilo. Foda-se a Lia! Opa, "foda-se" não, porque estamos na casa do Senhor! O Senhor é meu pastor e nada me faltará. Foi mal aí, Deus.

Entramos na igreja e fomos andando, até encontrar a Gabi. Consegui me controlar. Sabia que não estava normal, mas algo mais forte parecia me dizer que eu deveria me comportar. Cumprimentei direitinho a Gabi, e ficamos ali. Boa parte dos meus amigos estavam lá, alguns com seus pais. Eu falava pouco, pra não correr riscos. Embora até ficar em pé fosse uma missão complicada. Avistei a Lia, entrando.

E..

Eu não sabia se era graças à minha ebriedade, mas eu nunca tinha visto ela tão linda. Aquela imagem não sairia fácil da minha cabeça, pude prever. Meti a mão no bolso e, disfarçadamente, tomei um Dramin.

- Oiii!
- Oi Lia!

Trocamos uns beijinhos, e ficamos conversando um pouco. Quer dizer.. Meu grupo de amigos, porque eu permanecia calado. Não por timidez, mas por receio de falar besteira. Senti uma vontade de ir ao banheiro.

- Vou ali! Já volto.

Corri pro banheiro, com dificuldade pra enxergar as pessoas que estavam na minha frente, aqueles obstáculos humanos. Cheguei ao banheiro, bem amplo, e fechei a porta. Olhei-me no espelho, tentando reconhecer um João Eduardo no reflexo. Da exaltação, parti para a depressão. Botei as mãos na cabeça e abaixei-me até o chão. Fiquei sentado ali. Levantei-me e olhei para o espelho novamente. Olhei, e perguntei: "Quem é você?".

Meu estado de perturbação mental era tamanho, que comecei a me socar. Vi que não sentia tanta dor, e fui batendo cada vez mais forte. Estava aflito, não sabia o que fazer, e a raiva aumentava a cada hora. Fiquei refletindo por alguns minutos. Se tudo isso valia a pena. Fiquei pensando como conseguia ter chegado à tal ponto. Droguei-me com remédios e bebida, porque era o que havia, mas se tivesse acesso à cocaína ou outra droga pesada, certamente faria uso dela. Voltei a olhar para o espelho. Dei mais um soco no meu rosto, sentia que merecia. Mas eis que alguém chegou, assustado.

- Meu filho! O que é isso?

Era um homem de batina. Sim, era o Padre, só podia ser. Consegui me descontrolar ainda mais.

- Isso? Isso é o Capeta, padre! Tô tirando o capeta do corpo! Ele não sai de jeito nenhum, esse desgramado!
- Você precisa de ajuda. Conte-me. O que há com você?
- Eu sou um drogadinho, padre! Eu sou um perdido na vida! E olha que eu não gosto dessas coisas naturebas não. Maconha? Isso é coisa pra criança! Eu gosto é de cocaine! Padre.. você não imagina no que eu estou pensando agora. Você não imagina que tipo de pensamento está passando pela minha cabeça agora. Eu vou pro inferno, padre!

Nota: pensamentos diabólicos REALMENTE passavam pela minha cabeça. Prossegui.

- Ontem eu comi 3 menininhas, sabe. 3 putinhas. Novinhas, fãs de RBD.
- Santo Deus!
- E dei pra dois caras, padre. Eu não estou certo sobre minha opção sexual, entende? Eu acho que quero assumir! Mas.. Mas isso tem sido um problema. Eu não sei! Sabe? Sei lá. Padre, eu quero dar pra você!
- Minha nossa senhora! Acalme-se, meu jovem. Eu tenho que rezar a missa, tente se acalmar. Qual seu nome?
- Ok, padre, pode ir! Vá em paz! Meu nome é.. Leonardo. Leonardo Freitas.
- Fique com Deus, meu filho, vamos resolver isso!
- Acredito! Acredito...

O padre saiu, ainda assustado comigo.

- ..só acreditoooooo no semáforooooo! Só acredito no aviãooooooo! Não acredito no relógiooooooooo!

(Vanguart - Semáforo)

Cantava e dançava. Comecei a rir, diabolicamente. Lavei o rosto, respirei fundo e voltei pra missa.

Fui andando devagarzinho para perto dos meus amigos. Estavam todos quietos, olhando pra frente. Peguei aquele jornalzinho e comecei a tentar acompanhar o que o padre dizia. Vez ou outra, olhava pro lado, pra Lia. Não queria falar nada. "Só queria estar ali. Sempre ao lado dela." (Legião Urbana - Ainda é cedo)

* * *

Palavras e mais palavras.

" - Iniciando esta celebração de Missa de formatura, fomos convidados a agradecer a Deus por nos ter chamados à luz da verdade. Celebramos, ao mesmo tempo, a superação das trevas da ignorância e a esperança num futuro feliz e num mundo melhor. E o fazemos à luz da Palavra de Deus e da Eucaristia, para que sustentem a caminhada em busca da verdade, da justiça e do amor."

Não prestava atenção. Ouvia tudo que era dito, mas não prestava atenção. Vez ou outra, somente, algumas frases conseguiam superar aquela enorme barreira e entrar no meu pensamento.

" - Vocês não estão sozinhos. Jesus Cristo, Nosso Senhor e Mestre, ao despedir-se de seus apóstolos, de seus discípulos e dos que o acompanhavam, lhes disse: Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos séculos.."

Cânticos, orações, ensinamentos. Durou um bom tempo, não lembro quanto. Eu não lembro de muita coisa, pra ser franco. Só estou contando aqui aqueles fatos mais importantes que, mesmo após tanta bebida e remédios, permaneceram na minha memória. A missa estava chegando ao fim. Podia esquecer de tudo, menos da cena final. O padre, olhando para as pessoas ali da frente, aparentemente procurando alguém, começou a falar.

- E hoje eu gostaria de dedicar essa última oração para uma pessoa que aqui está. Eu não sei onde ele está. O nome dele é Leonardo Freitas. É um jovem que anda com alguns problemas, que certamente serão superados, com a graça de Deus. Vamos dar as mãos e pedir, não só pelo Leonardo, mas por todos nossos irmãos que vivem situações parecidas.

Eu não sabia se ria ou se fingia surpresa. O queixo da Lia caiu uns dois metros. O Fred ficou me olhando, quase feliz. E o Leonardo..

Bom, o Leonardo estava ali perto. Estava nitidamente envergonhado. E revoltado. Mal acreditava. Seus pais, então, estes é que deviam estar se perguntando "O que há de errado com meu filho?". O Leonardo já saiu falando, em voz alta.

- Eu não conheço esse maluco! Esse padre é doido! O que deu na cabeça desse idiota?
- Meu filho, por favor, tenha respeito! Estamos numa igreja, fale baixo. Depois a gente conversa.
- Mas mãe, que loucura é essa? Que palhaçada é essa? Eu sabia que não devia ter vindo nessa merda de Igreja. Eu nunca gostei dessa porra! Falô pra vocês!

E saiu andando apressadamente até a parte externa.

O padre acabou não vendo, havia muita gente na igreja. Nem mesmo chegou a me avistar. Os comentários não paravam. Todo mundo queria saber o que havia de errado com o Leonardo. Mas a Lia parecia saber.

- Nossa. Acho que contaram pro padre.
- Contaram o quê?
- É um probleminha aí. Gente,vamos lá pra fora, tá quente aqui.

Mas, quando todos já iam saindo, vi que os pais do Leonardo foram falar com o padre. Fiquei curioso, pensando se não deveria ficar ali perto ouvindo, mas ele poderia me ver. Fui lá pra fora, com o Fred, a Gabi e a Lia. Pensei que aquela seria uma boa oportunidade de passarmos vários minutos conversando, mas a Lia resolveu ir embora.

- Gente, já vou! Tô muito cansada. Beijo pra vocês.

E se foi. O Fred já demonstrava uma certa "intimidade" com a Gabi. Achei melhor deixá-los à sós, e me despedi também. Mas, na saída, vi os pais do Leonardo falando com ele. Aproximei-me, discretamente, e fiquei próximo à um carro, como se estivesse esperando alguém. Eles falavam tão alto que nem precisei ficar tão perto pra ouvir. E nenhum deles notou minha presença ali.

- Olha, Léozinho. A gente quer que você saiba que estamos contigo, independente de qualquer coisa.
- Do que vocês tão falando?
- Filho, não minta pra nós. Por favor. Não complique mais as coisas. Já sabemos de tudo.

O Leonardo olhou pro chão, com a cara fechada. E respondeu.

- Tá, tá bom. Mas eu não quero ir pra uma daquelas clínicas! Eu posso parar a hora que eu quiser! Eu não sou viciado!
- Estamos com você, meu filho. Nós vamos te ajudar no que for preciso. E sobre opção sexual.. É uma escolha, filho! Você pode mudar essa escolha. Você tava namorando a Lia e tudo mais! Eu nunca imaginei..
- Calma aí, pai! Eu posso usar droga, posso beber pra caralho, fazer muita merda, mas viado eu não sou não!
- Filho..
- Quem colocou isso na cabeça de vocês? Que merda!
- Eu atendi o seu celular, uma vez. Desculpe-me, sei que não devia. Mas atendi. Não sei o que aconteceu, acho que o rapaz pensou que eu fosse você, deve ter confundido, já que nossas vozes são parecidas. Ele me contou tudo, filho. Pensando que falava com você, mas contou.
- Contou o quê? Vocês estão loucos!
- Sobre o cinema.. sobre o bilhetinho..
- Eu vou me matar.
- Filho! Nós estamos com você! Pelo amor de Deus, você não precisa tomar nenhuma decisão dura. Isso vai passar. Vamos embora.
- Tá. Eu não vou me matar.
- A morte não é solução pra nada!
- Eu vou matar esse padre. E vai ser agora!

O Leonardo tentou correr em direção à Igreja, mas foi contido por seus pais e por um primo que estava com eles.

- Vamos embora! Entra no carro, filho! Fique calmo!

Senti que o "show" já havia acabado e tomei o rumo pra casa. Já estava quase sóbrio, apenas com um pouco de sono. Fui andando e pensando que, mais uma vez, havia fracassado. Mas havia um sentimento de vitória pelo que aconteceu com o Leonardo. Vingança? Talvez. Uma atitude deplorável, certamente. Mas, veja só, no final das contas, serviu pra alguma coisa. Não só eu, como os próprios pais dele descobriram o "terrível" segredo do Leonardo. Fiquei olhando pro nada, pelo caminho. E acabei reconhecendo que, nesse dia, eu era igual à ele. E eu não queria ser. Eu não devia ser. Por mais que aquele jeito permitisse à ele conseguir o que eu mais queria na vida, a Lia, senti que não estava disposto a pagar este preço pelo meu desejo. E voltei pra casa, ainda sonhando. Afinal, a formatura ainda estava por vir.

Minha última chance, talvez.

Comunidade no Orkut - Participe!

João Eduardo l 4:30 AM l

Terça-feira, Dezembro 19, 2006


If I could be who you wanted.. All the time, all the time Fake plastic Trees - Radiohead

Último dia de aula. Fim de um ciclo. Esperei tanto por esse dia! Nos piores momentos da minha época de estudante de colégio, quando eu precisava fazer prova e tinha que passar horas estudando, ou mesmo quando eu olhava pra cidade, da janela da sala, e me sentia preso ali, naquele lugar fechado e cheio de gente, sempre sonhava com o dia em que, finalmente, eu terminaria o ensino médio. O dia em que eu não precisaria mais me preocupar em acordar cedo, ou dar satisfações para um diretor chato. O dia em que eu não precisasse mais estudar um monte de matérias que odeio e aturar professores que adoram pegar no meu pé. O dia em que, finalmente, eu conquistaria a minha liberdade! Parece besteira, mas é assim que eu imaginava que seria.

Mas no último dia de aula, por incrível que pareça, não me senti feliz. Afinal, é triste deixar de conviver com tantas pessoas que passaram a fazer parte da minha vida. Sei bem que as maiores amizades continuarão existindo, mas muitas delas certamente irão sumir, e outras perderão força. E o colégio, por mais que tenha seus "contras", sempre foi palco de grandes acontecimentos, que não irão se apagar facilmente da minha memória.

No último dia de aula, encontrei meus melhores amigos do colégio e resolvemos fazer algo diferente. Combinamos de nos encontrar na frente do colégio e seguirmos outro rumo. Fred, Augusto, Daniel, Gustavo, Renato. Muitas das histórias contadas até aqui tiveram estes personagens. A partir de hoje, não sei quantos deles ainda terão alguma participação importante na minha vida.

Pode soar um pouco melancólico às vezes, mas a vida é assim. As pessoas vão e vêm, às vezes seguimos caminhos diferentes. E o que hoje é uma grande amizade amanhã pode se tornar apenas uma boa lembrança. Tenho consciência de que, quando entrar na faculdade, minha vida mudará por completo. Conhecer pessoas novas, perder contato com amigos do colégio, precisar ter mais responsabilidade. Novas oportunidades, emoções. Mas, hoje, eu só queria pensar no dia de hoje. Que já era especial mesmo antes de começar.

Nos encontramos e partirmos.

- E a gente vai pra onde?
- Caras.. Que tal um shopping?
- Depende. A gente tem que fazer algo diferente. Pra ficar marcado mesmo. Pô, é o último dia de aula! Já fizemos bem em não ter ido assistir.
- Não há muito o que se fazer de diferente em plena manhã. Vamos pra um praça jogar conversa fora. Vamos andar por aí. Acho que só o fato de não estarmos na aula já me deixa feliz.
- Isso aí, não temos muita escolha. Galera, eu tenho uma graninha aqui. Vamos comprar bebida e sair bêbados por aí. Em plena manhã de sexta-feira! Isso vai ser memorável.

Passamos num barzinho, e o Renato, que tem 18 anos, foi comprar umas cervejas. Eu nunca tinha bebido na vida. Um gole ou outro, mas nunca enchi a cara.
Sentamos no banco de uma praça e começamos a beber. Descobri que odeio cerveja. Mas "ice" é até agradável. Entre várias conversas, o Fred comenta.

- O ano tá acabando e o João não ficou com a Lia!
- Porra, João! Botava fé em você.
- Ah, mas é isso aí cara, agora tem que beber pra afogar as mágoas.
- Eu tinha apostado 30 mangos em você, cara! Pelo visto vou perder a aposta.
- Você o quê? 30 mangos? Vocês são loucos, eu nunca gostei dela.
- Aham. Aquele Leonardo tem uns podres, não sei como a Lia fica com ele. Eles não combinam.
- Que podres?
- Uns lances aí. Não posso falar, mas procura saber.
- Vocês ficam me usando pra fazer aposta, seus safados!

- João, entenda uma coisa. As mulheres gostam de caras idiotas. Elas morrem negando, dizem que sonham com um príncipe num cavalinho branco que vai fazer tudo que elas querem, mas a gente sabe que não é verdade. Você é um cara legal, bacana, todo mundo aqui sabe disso. É uma espécie em extinção naquele colégio. Já o Leonardo é o tipo de gente que eu não gosto nem de ver por perto, é aquele tipo de sujeito desprezível que contamina a nossa sociedade.

- Fred, a bebida te deixa mais inteligente hein? "Contamina a nossa sociedade".
- Eu sou burro mesmo, se eu fosse inteligente eu não tava aqui, tava na sala estudando pro vestibular. Mas de algumas coisas eu entendo. João, não se preocupe! Ainda há tempo de se tornar um idiota. Vai, bebe aí, enche a cara, e depois vai fazer merda. Repita isso todo os dias e você será o queridinho das mulheres.

E, pela primeira vez, eu fui tomando todas aquelas bebidas e, aos poucos, deixando de ser o que sou, pelo menos por alguns momentos. Parecia um retardado. Mas notei que, pelo menos, a bebida me tirava a timidez. Fazia sentido o comentário do Fred. A bebida podia me abrir portas, mesmo que me fizesse um idiota.

*

Conversamos sobre tudo, andamos por aí sem destino, relembramos algumas coisas, planejamos outras. Estávamos bêbados, porém relativamente comportados. Alguém se lembrou de olhar pro relógio e viu que já passava de meio-dia. Nos despedimos e cada um seguiu o seu caminho.

- A gente se vê por aí! Depois liguem pra marcar alguma coisa.
- Valeu, velho, abração!

Cheguei em casa, levemente embriagado, corri pro quarto e desabei na cama. Só acordei à noite.

- João!

(zzzzz)

- João!
- Qhsd.. foi?
- Não vai pro pré-vestibular?
- Pré o quê?

Ó, dura vida de estudante.

No dia seguinte, acordei às 6:00 em ponto. Levantei-me, fui até o banheiro, enxuguei meu rosto. Foi aí que eu notei que havia algo de diferente.

- Calma aí. Eu tô de férias! Por que acordei à essa hora da madrugada?

Voltei pra cama e dormi até meio-dia. Acho que nunca me senti tão feliz. E deve ser assim de agora em diante. Isso que é vida!
Foi bom ter dormido muito, descansado. Porque era o dia da missa de formatura. E vocês não fazem idéia do que aconteceu.

*

Sei que tô virando uma espécie de "João Kléber" mesmo, mas aguardem. Logo mais eu conto!

Comunidade no Orkut

João Eduardo l 3:23 AM l

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006


Calma aí!

Último dia de aula, Missa de Formatura e otras cositas más..

Logo mais, não mude de canal.

João Eduardo l 5:40 PM l

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006


She was standing beneath the chandelier.. I offered her chocolate and some beer.. She said no, I said why, she said no, I said why.. And stayed dancing alone.. Elefant - Tonite let's dance

Fui pra aula e encontrei um amigo no pátio, o Alex, um dos maiores CDFs do colégio. Contou-me que havia pego a nota do prova de redação com o professor e que tirou 10.
Parabenizei ele, disse "Pô cara, você é fodão mesmo! Parabéns!". Ele agradeceu, orgulhoso.
Entramos na sala e o professor foi comentar sobre as redações. Todos em silêncio, e ele começou.

- Bom, vamos falar então sobre as redações. Tivemos aqueles que tiraram nota máxima, que fizeram tudo certinho, sem nenhum erro. Gente com o Alex, a Patricia, o Vinicius. Estou muito orgulhoso de vocês.

Ficou calado por alguns segundos. Depois, demonstrando desapontamento, comentou:

- Por outro lado, tivemos alunos que não seguiram a mesma linha. O que me deixou frustrado. Gente como o João Eduardo..

O susto foi enorme. A vergonha veio logo em seguida, junto com a tristeza, que tentei disfarçar com um sorriso amarelo. A sala inteira olhando pra mim, alguns com olhar de pena. Ouvi uma menina, ali perto, falar "Tadinho...".
Abaixei a cabeça, ruborizado, e esperei aquilo tudo passar.

E eis que o professor prosseguiu.

- Eu tenho que confessar que me deixa frustrado pegar a redação de um aluno como o João Eduardo. Deixa-me frustrado ver que, depois de tantos anos de profissão, dando aulas de redação, de tantos livros lidos, de tanta experiência, eu não tenho a genialidade que esse menino de apenas 17 anos tem, pra escrever um texto. Eu espero, e vocês podem esperar também, o dia em que nós vamos ver este menino fazendo sucesso na imprensa ou escrevendo livros, e não apenas sendo bem sucedido na redação do vestibular. Meus parabéns, João!

E ele começou a aplaudir, e toda a sala fez o mesmo. Gente gritando, alguns amigos vieram me cumprimentar. Eu, que já tava morto de vergonha, quase tive um ataque do coração. Mas dessa vez com um sorriso no rosto e muito orgulho.

É óbvio que foi exagero dele, mas achei incrível a maneira que o professor achou pra me elogiar. Ele me deixou pra baixo, fez eu me sentir um merda, pra depois me reverenciar. Às vezes acho que o nosso amigo lá de cima também faz isso. Acredite você ou não, não vamos entrar no tema "religiosidade". Mas eu acredito, e acho que ele faz isso pra que a gente dê mais valor para as conquistas. Porque é certo que as pessoas não costumam dar o devido valor para aquilo que é fácil de ser conseguido.

E depois de se sentir no fundo do poço, é indescritível a sensação de voltar ao topo, e até passar das nuvens.

João Eduardo l 1:59 AM l

João Eduardo, 17, estudante do 3° ano, pré-vestibulando. Finge que estuda, mas quando vai pra aula fica o tempo inteiro explorando o planeta Marte. Não é a toa que se sente um ET.

Max, 17, trabalha na locadora do seu tio e cursa 1° ano de jornalismo. Com certeza o trabalho na locadora é mais divertido que a faculdade, ele crê.

Em comum, nós temos várias coisas: gostamos de indie rock, somos inseguros quanto ao nosso futuro e.. nunca namoramos ninguém. Isso mesmo, por mais bizarro que possa parecer. Mas estamos correndo atrás, não pretendemos morrer cabaços.

Essa aventura você acompanha neste blog, atualizado diariamente.

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